A ginga da língua: como o futebol entrou no vocabulário do brasileiro
Pesquisadora do PPG em Linguística analisa como expressões nascidas nos gramados fazem parte da nossa cultura
Com a chegada da Copa do Mundo, o futebol volta a ocupar um espaço central nas conversas, nas ruas, nas redes sociais e nas relações cotidianas dos brasileiros. Mas sua presença na cultura nacional vai muito além dos gramados. O esporte também deixou marcas profundas na forma como falamos, interpretamos situações e damos sentido a experiências comuns do dia a dia.
Expressões como “jogar limpo”, “virar o jogo”, “matar no peito”, “pisar na bola”, “bater na trave”, “marcar um golaço”, “levar cartão vermelho”, “jogar em casa”, “aos 45 minutos do segundo tempo”, “bola fora”, “comer bola”, “com a bola toda”, “fazer cera” e “dar um chapéu”, ultrapassaram o campo esportivo e passaram a circular em diferentes contextos sociais. Hoje, aparecem em conversas familiares, no ambiente de trabalho, na política, na internet, na publicidade e em diversas outras esferas da vida pública e privada.
Segundo a Profa. Dra. Marília Achete Junqueira Garcia, pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Linguística e docente da UNIFRAN, essa circulação revela a força simbólica do futebol na construção da identidade brasileira.
“O futebol faz parte da identidade do povo brasileiro e da sua história. Essa identidade é construída pela memória, pelas paixões despertadas pela torcida e pela atualização constante de discursos que associam o Brasil ao chamado ‘país do futebol’”, explica a professora.
Metáfora para a vida
O termo “ginga”, por exemplo, originalmente associado ao balanço do corpo, à dança, ao samba e à capoeira, passou também a representar a habilidade de driblar o adversário com criatividade, agilidade e improviso. No futebol, essa ginga se tornou um traço reconhecido da forma brasileira de jogar, associada a nomes como Garrincha, Pelé, Ronaldinho Gaúcho e Neymar Jr.
Mas a ginga não ficou restrita aos pés dos jogadores. Ela também se deslocou para a língua. Ao incorporar expressões futebolísticas ao vocabulário cotidiano, o brasileiro passou a usar o esporte como metáfora para explicar disputas, fracassos, conquistas, oportunidades, conflitos e reviravoltas. Um erro pode ser uma “bola fora”; uma conquista profissional pode ser um “golaço”; uma chance perdida pode “bater na trave”; uma mudança de rumo pode representar a possibilidade de “virar o jogo”.
“Da formação discursiva do futebol migram, para a linguagem cotidiana, inúmeros termos e expressões que evidenciam a dimensão e a importância desse esporte na vida do brasileiro. É uma linguagem que transita livremente por diferentes espaços sociais”, afirma a profa. Marília.
Imaginário popular
O futebol, considerado por muitos a “paixão nacional”, ajuda a organizar formas de dizer e de compreender o mundo. Ao mesmo tempo, essas expressões reforçam o lugar do esporte no imaginário social brasileiro, fazendo com que ele continue presente mesmo fora dos estádios e das transmissões esportivas.
Durante a Copa do Mundo, esse repertório tende a se intensificar. A torcida, as expectativas em torno da seleção e o desejo pelo hexa reacendem discursos associados à vitória, à superação e à identidade do Brasil como “país do futebol”. Mesmo quando a seleção não vive sua fase mais vitoriosa, a linguagem mantém vivo esse vínculo afetivo e simbólico entre o brasileiro e o esporte.
“Nessa Copa, é esperado que a identidade vitoriosa construída ao longo de décadas pelos brasileiros emerja novamente. É esperado que o time não ‘bata na trave’, não ‘pise na bola’ e não ‘embole o meio de campo’. Se a Copa não for nossa, resta continuar com a ginga da língua, porque nisso somos sempre campeões”, destaca.
Assim, se o resultado em campo ainda é incerto, uma vitória parece garantida: a permanência do futebol na língua. Na forma de metáforas, brincadeiras, críticas e expressões populares, o esporte segue revelando uma das características mais marcantes da cultura brasileira: a capacidade de transformar jogo em linguagem, e linguagem em identidade.