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Testes de medicamentos contra esquistossomose e doença de chagas começam este ano


01
July 2010

marcio250_3.jpgUnifran, Fapesp e JP Farmacêutica assinaram convênio para dar início aos testes pré-clínicos e estima-se que até a chegada dos medicamentos no mercado mais de R$ 5 milhões serão investidos

A Unifran – Universidade de Franca – assinou convênio com a FAPESP (Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo) e com a Indústria Farmacêutica JP, sediada em Ribeirão Preto, para dar sequência aos testes pré-clínicos e posteriormente desenvolver medicamentos que podem curar a esquistossomose (conhecida popularmente como barriga d’água) e controlar a doença de chagas.

Os testes terão início ainda este ano e serão realizados em laboratório certificado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Durante 28 semanas o medicamento será injetado em ratos, camundongos e coelhos. Para avaliação serão produzidos mais de 1,5 Kg de cada composto. Assim que os ensaios forem finalizados terão início os testes clínicos, a serem realizados em humanos sadios e infectados.

Em outubro de 2009, foi aprovado o Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE), da FAPESP, que co-financia a pesquisa. No entanto, este será só o início de uma longa caminhada, pois para colocar os medicamentos na prateleira das farmácias serão necessários mais de R$ 5 milhões de investimentos entre planta industrial, marketing, desenvolvimento de formulações, etc.

Abib Salim Cury, membro do Conselho Administrativo da ACEF S/A (mantenedora da Unifran) explica que desenvolver pesquisa é uma das exigências para que uma instituição de ensino seja universidade, mas que dentre as particulares, a Unifran é pioneira em pesquisa. “Das universidades privadas que conheço, a Unifran talvez seja a que mais investe em pesquisa, a ponto de estar desenvolvimento um medicamento capaz de curar a esquistossomose e controlar a doença de Chagas. Temos o apoio incondicional da FAPESP e acredito que a pesquisa é o grande diferencial da Unifran”.

Para a Reitora da Universidade, Rosalinda Chediam Pimentel, a área da Pesquisa numa Universidade representa o que há de mais criativo e inovador, mobilizando seus docentes e discentes na busca de algo novo e singular. “Na Unifran, a Pesquisa tem propiciando motivo de muito orgulho pelos resultados que vêm alcançando,   contribuindo de forma assertiva para a qualidade de vida da sociedade nacional e mundial, através da descoberta de medicamentos fitoterápicos, sem efeitos colaterais e de amplo espectro sobre o cotidiano do ser humano", disse.

A pesquisa
Em 2001, a equipe de pesquisadores da Unifran, comandada pelo Prof. Dr. Márcio Luis de Andrade e Silva descobriu um medicamento composto, obtido a partir de derivados semi-sintéticos de cubebina, uma substância natural extraída da semente seca de Piper cubeba uma pimenta originária principalmente da índia, capaz de controlar a doença de chagas, transmitida pela picada do inseto conhecido por barbeiro. Dois derivados de cubebina não foram eficazes contra a doença de chagas e nem como antiinflamatórios, mas na seqüência dos testes, em 2004, mostraram excelentes resultados no combate à esquistossomose, com a eliminação total da doença.

O projeto foi desenvolvido na própria Unifran, pelo o grupo de pesquisa do Prof. Dr. Márcio Andrade contando com a colaboração dos Profs. Drs. Wilson Roberto Cunha, Paulo Ségio Calefi, Eduardo Nassar, Kátia Jorge Ciuffi e Ademar Alves da Silva Filho contando com a colaboração externa dos Profs. Drs. Rosângela da Silva (Unesp-Ilha Solteira), Paulo Marcos Donate, do Departamento de Química (FFCLRP-USP), Wanderley Rodriguez da (FMRP-USP), Sérgio de Albuquerque e Jairo Kenupp Bastos (FCFRP-USP), Olavo dos Santos Pereira júnior (UFES).

A cubebina, utilizada neste estudo, foi extraída de um tipo de pimenta asiática (parecida com a pimenta do reino) cujo nome científico é Piper cubeba, encontrada na Índia.

O Dr. Márcio Andrade conta que atualmente o medicamento mais utilizado no mercado para combater a esquistossomose, o praziquantel, não está sendo muito eficaz, já que cerca de 60% dos doentes já são resistentes a ele, além do mais age somente no verme adulto e ainda é nefrotóxico (intoxica os rins). “Este resultado se mostrou extremamente importante e promissor, pois nos dias que a droga foi administrada, o parasito ainda se encontrava em desenvolvimento, não tendo atingido a forma evolutiva de vermes adultos. Desta forma, considera-se que esses ensaios indicam que a droga administrada atue também nas formas intermediárias do parasito (esquistossômulo), dentro do hospedeiro vertebrado, o que não é observado para praziquantel, que atua apenas na forma adulta de vermes adultos de S. mansoni”, acrescenta o pesquisador.

Outra vantagem relaciona-se a baixa toxicidade destas substâncias para utilização na terapêutica antiparasitária, uma vez que muitos desses derivados têm ação hepatoprotetora e antioxidante. “Assim, a utilização destas lignanas oferece, certamente, maior segurança para o uso terapêutico em medicamentos para tratamentos mais prolongados, pois não foram registrados efeitos colaterais significativos”, conclui. Para a doença de chagas não há medicamento disponível no mercado. O único remédio que existia deixou de ser produzido pelo laboratório há alguns anos e nenhum substituto foi utilizado até então.