Notícias

Pesquisador fala sobre setor calçadista em jornal


06
October 2008

agnaldo250.jpg

Entrevista concedida ao jornal Comércio da Franca 

Raríssimas vezes foi possível ouvir alguém defender a indústria calçadista de Franca com tanta veemência e embasamento científico como faz o professor Agnaldo de Souza Barbosa nesta entrevista. E ele fala com o conhecimento de quem passou os últimos oito anos estudando o desenvolvimento da cidade e da região. Para ele, há a perspectiva de um futuro fabuloso, com desenvolvimento construído na evolução do setor calçadista em direção à indústria da moda. O professor critica a falta de políticas públicas que possam acelerar esse processo e rechaça qualquer possibilidade de transformação da cidade em um pólo comercial e de serviços.

Para ele, a economia local está literalmente nas mãos dos pequenos empresários e isso é o que tem garantido a sobrevivência de Franca. Com apenas 34 anos, Barbosa é dono de um currículo respeitável. É formado em História pela Unesp de Franca, onde também fez mestrado. É doutor e pós-doutor em Sociologia pela Unesp com pesquisa na área de desenvolvimento local e regional. Tem quatro livros publicados, três deles tendo como foco a questão do desenvolvimento regional.

Atualmente, é professor pesquisador da Unifran, coordenando o Ceder/Neic (Centro de Estudos do Desenvolvimento Regional / Núcleo de Estudos Sobre a Indústria e Cadeia Produtiva Calçadista), órgão apoiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). É natural de Frutal – (MG) e mudou-se para Franca em 1989 para cursar o ensino médio. Hoje, Barbosa já se considera francano.

Comércio da Franca – Qual é a diferença entre o desenvolvimento de Franca e o das outras regiões do País?
Agnaldo Souza Barbosa – Quando você pensa na indústria automobilística, farmacêutica, siderúrgica, a primeira coisa que vem à cabeça são multinacionais ou grandes empresas nacionais. Ou seja, o grande capital. Quando nós pensamos no desenvolvimento de Franca, pensa-se no empreendedor com parcos recursos financeiros. Mesmo assim, ele não deixou de construir um processo de industrialização, que hoje já se encontra bastante consolidado, com marcas fortes no contexto nacional. Quando nós pensamos em um empreendedor, como Miguel Sábio de Mello, um sujeito que era trabalhador rural em Cristais Paulista nos anos 20, vem para Franca de pés descalços, começa de uma forma muito modesta e se torna, no decorrer do século 20, referência na indústria de calçados latino-americana e no mundo. O modo de produzir calçados no Brasil, toda indústria, inclusive a das metrópoles do Rio e São Paulo, se transforma em função das mudanças que ele introduz a partir dos anos 50 e 60. E junto com ele, a partir dos anos 50 e 60, uma centena de pequenos empreendedores que constroem esse parque industrial.

Comércio – Isso ainda acontece?
Barbosa – Acontece. A cada dia aparecem novas marcas e ao investigar o histórico delas vemos que estão ligadas a pessoas que começaram no chão de fábrica, pessoas que começaram produzindo 20 pares, pessoas com uma origem social bastante modesta. E não é em um grau muito menos elevado do que nos anos 50. Pasmem, mas a pesquisa que acabei desenvolvendo no meu pós-doutorado mostra que mais de 60% dos empresários da indústria do calçado têm origem no chão de fábrica. Isso no século 21, enquanto o mundo fala de globalização, reestruturação produtiva e até de trabalho imaterial.

Comércio – Isso é incomum no setor no resto do País?
Barbosa – Sim. Você não consegue pensar em um operário de uma fábrica de geladeiras que se tornou um fabricante de geladeiras. Ou na indústria siderúrgica, de um metalúrgico que se tornou um fabricante de motores. Isso acontece porque a indústria do calçado até os dias de hoje é muito artesanal. O trabalho manual ainda é um componente essencial. Não a máquina, a mão do homem. Ou seja, o saber fazer. E isso é que torna essa indústria diferente, faz com que absorva muita mão-de-obra. Não é por acaso que diversos Estados querem atrair indústrias calçadistas para formação de pólos calçadistas…

Comércio – A gente assistiu, nos últimos dois anos, à queda de gigantes como a Samello e a Agabê. Quais são os reflexos disso em Franca?
Barbosa – É óbvio que o declínio de grandes marcas ocasiona um certo impacto nesse pólo calçadista. Mas, se você for observar, o nível de emprego não diminuiu, justamente por conta dessa característica de Franca e da indústria de calçados. As grandes empresas fecham e os funcionários abrem novas empresas. Isso mantém o nível de emprego mais ou menos estável e não acontece em outros setores, apenas no calçadista. E aqui em Franca há mais uma característica que a diferencia de outros pólos: uma rede de prestadores de serviço muito ampla. Cortadores, chanfradores, pespontadores e costuradores manuais possibilitam a entrada ainda mais fácil de empresários nesse ramo.

Comércio – Essa pulverização de grandes empresas que fecham e dão lugar a outras menores em maior número muda alguma coisa no cenário do desenvolvimento regional?
Barbosa – Depende. Se esse surgimento de micro e pequenas empresas for amparado por políticas públicas que visem a dar uma base para elas se manterem no mercado pode ser até melhor. Mas hoje elas atendem pessimamente aos pequenos. Isso porque temos políticas públicas feitas em Brasília. A todo momento o BNDES cria novas linhas de crédito para o setor calçadista. Mas são para grandes empresas e elas não existem mais. Para um pequeno ter acesso a essa linha de crédito é uma burocracia tão grande que foge à capacidade de entendimento desse sujeito que veio do chão de fábrica. Exatamente porque eles (quem elabora as políticas públicas) não entendem a indústria do calçado. E é justamente esse o objetivo do nosso grupo de pesquisa: tornar a indústria do calçado inteligível para o mundo lá fora.

Comércio – O Sindicato das Indústrias tem uma nova diretoria. O presidente José Carlos Brigagão do Couto diz que pretende reunir os pequenos na entidade e ganhar força. Iniciativas como essa podem ser uma solução?
Barbosa – É a única forma de se constituir uma indústria mais forte, dos pontos de vista econômico e político. A primeira coisa que se deveria fazer é um censo empresarial abrangente. Mapear cada fabricante de fundo de quintal, trazer esse pessoal para o sindicato. Para se ter representatividade tem que se agregar os pequenos, que representam hoje 78,5% do emprego no setor. Em nenhum outro pólo calçadista essa representatividade é tão grande. Em Birigüi e no Rio Grande do Sul é pouco mais da metade. Isso significa uma responsabilidade maior sobre eles e do poder público em auxiliá-los, porque boa parte do emprego depende deles. Vejo que, ao contrário, o que tem sido feito, nos últimos dois anos, é demonizar a indústria do calçado porque Franca estaria se tornando um pólo comercial e de serviços e não precisaria mais da indústria do calçado. Acho isso de uma ingenuidade tamanha! Essas empresas não vêm para cá para gerar emprego e renda. Pelo contrário, elas estão aqui para usufruir da renda gerada por esse pólo. Carrefour, Wal Mart, C&A, C&C, Tonin, todos vêm para cá porque no primeiro semestre deste ano a cidade apareceu entre as dez cidades do Brasil que mais geraram empregos, à frente de muitas capitais. Isso chama a atenção de qualquer rede varejista, porque ela depende da renda das pessoas que vão comprar no varejo, em pequenos volumes ou um eletrodoméstico, em crediário de várias prestações.

Comércio – Nesse sentido há até uma comparação com Ribeirão Preto…
Barbosa – Ribeirão Preto começou a se constituir num pólo de serviços ligados à saúde e ensino nos anos 50. Algumas faculdades, como a faculdade de Química têm mais de 50 anos, a Medicina também. Franca está iniciando esse processo agora de se tornar um pólo de ensino. É um serviço ainda incipiente. E dizem que Franca pode ser considerada uma nova Ribeirão, com um perfil que não é de cidade operária. O que, economicamente, nos leva a pensar nisso? Não temos casas de shows aqui para esse público de classe média, que é restrito. Os grandes bancos, voltados para a classe média-alta, Citibank, Bank of Boston, Credit Suisse não existem. Nessa nova economia de Franca nenhum banco se instalou. O nosso perfil de renda continua mais ou menos estável. Por isso me preocupa essa demonização da indústria do calçado, como se nós não o quiséssemos mais. Enquanto os outros Estados, que estão constituindo seus pólos, querem. E aí também há uma demonização do empresariado do calçado, que tem as suas deficiências, sim, mas foi ele que constituiu essa referência para o Brasil que Franca é hoje. E boa parte desse empresariado do calçado é muito mais vítima do que vilão. Porque ele se estabelece no mercado em condições precaríssimas. Sem ser empresário. Ele não sabe nem o que é globalização, não entende direito o que é variação cambial. No entanto, ele se lança na linha de frente do mercado, o que é uma especificidade de Franca, em comparação com outros lugares do mundo. Esse pequeno empresário na Índia é prestador de serviço para grandes empresas como a Nike, Adidas, Reebok. Aqui não.

Comércio – A qualificação desse empresário seria um ponto a ser discutido nas políticas públicas que o senhor citou?
Barbosa – Exatamente. Se ele tem mãos hábeis, que conseguem fazer o sapato, nas políticas públicas é preciso ter quem pense junto com essas pessoas. É inconcebível um pólo econômico como Franca não ter uma agência de desenvolvimento até hoje, porque ela seria estimulador dessa economia e da sofisticação desses empresários. Mas o setor público não tem idéia de quantas pessoas fabricam calçado. Não há números, de quantos pares, muito menos quem fabrica o que, até para se ter a idéia de qual nicho de mercado em que cada calçado poderia entrar. Poderia se aproveitar o know-how formado nas universidades locais para ajudar esse empresário a descobrir novos mercados, traçar estratégias de marketing. Temos um potencial muito grande, que mesmo antes de se desenvolver já estamos querendo abandonar. Como alguém que começa a resolver uma equação e como não consegue diz que não serve para nada.

Comércio – E a Prefeitura, pode fazer alguma coisa para ajudar?
Barbosa – Hoje em dia, o poder local tem que se preocupar com questões de desenvolvimento. Senão a gente cai na questão do BNDES, que lança uma política pública que não tem nada a ver. No mundo inteiro é o poder local que cuida disso. O que o poder público local pode fazer? Primeiro dar uma referência para a cidade. Uma campanha institucional. Em Birigüi, por exemplo, todos os documentos oficiais da Prefeitura têm a logomarca da cidade, citando que é a capital nacional do calçado infantil. Isso é lei municipal. Em Nova Serrana, a participação da prefeitura junto à indústria do calçado levou à vinda de técnicos de cursos ligados à área. É preciso abandonar a idéia de que o poder local não tem nada a ver com isso. Ele deveria ser o responsável por dar as diretrizes, em dialogar permanentemente com o empresariado.

Comércio – Qual é, então, o futuro da indústria calçadista?
Barbosa – Se nós conseguirmos desenvolver um referencial de estratégia de mercado, de conceitos de calçado e de moda, eu vejo um futuro fabuloso. Porque quase tudo está para se construir. Vou dar o exemplo de Milão, na Itália. Era uma cidade pura e simplesmente industrial, hoje é um pólo de moda. O sistema da moda é a fabricação e a concepção de tudo que tem a ver com eles. Roupas, calçados, bolsas, acessórios, designers, indústrias paralelas, curtumes. No nosso caso já temos tudo isso. Uma indústria que se assente sobre a nossa estrutura. E esse caminho já está se desenhando sem nenhum auxílio público. A indústria da lingerie já tem mais de uma centena de empresas.

Comércio – Mesmo com a falta de políticas públicas, Franca está caminhando nesse sentido?
Barbosa – Nesse aspecto eu sou muito otimista. Eu não falo em nome dos empresários, falo em nome da ciência, do que dá para se vislumbrar a partir dos estudos feitos. Você sai pelas ruas e vê muitas pessoas costurando sapato no quintal de casa. Em alguns lugares o sujeito olha o sapato e constrói ele inteiro. Isso é conhecimento, informação. Não tem a cultura formal, mas sabe como fazer um produto que vai para o mercado. Isso é o conhecimento disseminado. Não apenas nas universidades e dentro das fábricas. Aqui em Franca você tem isso em cada casa, em cada família. Eu não acredito que as pessoas vão andar descalças ou ter um calçado digital daqui a 10, 30 anos. As pessoas se calçam cada vez melhor e com mais conforto. Aliás, surgiu da cabeça de um francano outra referência em calçado, que é o de máximo conforto, de um sujeito muito simples, o Geraldo Ribeiro Filho (proprietário da Calçados Opananken). Não é nenhum gênio da humanidade. Mas ele soube usar esse conceito contemporâneo e aplicar no calçado.