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Dia Mundial da Poesia


10
March 2008

poesia250.jpgtexto por Everton de Paula
Diretor de Publicações da Universidade de Franca

 Curiosamente, há dois dias próximos um do outro que são reconhecidos como o Dia da Poesia: 14 de março e 21 de março. Vejamos.

 A 30ª sessão da Conferência Geral da UNESCO proclamou o dia 21 de março como o Dia Mundial da Poesia. Entre os objetivos dessa iniciativa está o incentivo e reconhecimento da poesia regional, nacional e internacional, e desencadear processos que devem servir para apoiar a diversidade lingüística e cultural, utilizando a expressão poética, e oferecer a línguas ameaçadas de extinção a oportunidade de serem ouvidas na comunidade internacional.

 No Brasil, foi escolhido o dia 14 de março para se comemorar o Dia Nacional da Poesia, data de aniversário do poeta Castro Alves, que nasceu na Bahia em 1847 e faleceu em Salvador em 6 de janeiro de 1871. Também se comemora nesta data (14 de março) o Dia do Vendedor de Livros.

A poesia nasceu na Grécia antiga, berço da civilização ocidental, com Homero, autor de Ilíada e da Odisséia.

Desconheço, pelo menos em Franca e região, formas oficiais determinadas para comemorar esse dia. Meios, inteligência e sensibilidade não faltam. Franca e Ribeirão Preto, por exemplo, pelas suas academias de letras, poderiam variar de leituras públicas à concessão de prêmios de poesia. E nas escolas públicas e particulares, professores de língua e literatura deveriam lembrar aos seus alunos o dia e a homenageada, e proceder à leitura das poesias compostas ao longo do tempo, para que crianças, adolescentes e universitários, ao menos uma vez num determinado período escolar, tivessem a oportunidade de reconhecer – sem a obrigatoriedade da aula e prova; apenas o prazer de ler – um dos processos mais significativos e causadores de emoção, de sensibilização da alma humana pela palavra.

Reconheçamos, no entanto, que a poesia não nasce já formatada unicamente pela palavra. Surgiu simultaneamente com a música, a dança e o teatro, em época que remonta à Antigüidade histórica. No decorrer da história, ensaístas e filósofos já se preocupavam com a essência da poesia, numa tentativa de desligá-la da matriz onde fermentara com outras expressões que também foram conquistando autonomia e   passando à qualidade de gêneros. A poesia, ligada à estrutura narrativa, é a expressão artística que mais discussões tem suscitado em relação à sua essência.

Teorias contemporâneas têm levado bem mais longe o princípio da autonomia da palavra poética. Assim foi no Renascimento, na época romântica, no realismo, notadamente no modernismo brasileiro.

Mas ao leitor comum, despreocupado com a memorização de teorias, conceitos e versos de poetas famosos para repeti-los ou identificá-los em processos seletivos de entrada nas universidades e concursos públicos, pouco interessam essas discussões. Delícia mesmo é descansar o corpo, acalmar a mente e deixar a alma vagar pelas imagens, entre metáforas e versos quebrados e inteiros, rimados e livres, de hoje e de ontem… Porque a poesia é a expressão pela linguagem humana, elevada ao seu ritmo essencial, do sentido misterioso dos aspectos da existência: ela dota de autenticidade nossa vida e constitui-se numa tarefa de ordem espiritual. É a linguagem dos anjos.

Com efeito, alguns poetas românticos viam na poesia a palavra primitiva revelada ao homem por inspiração divina. Coleridge, poeta romântico inglês, dissera que “as divinas verdades da religião tiveram de ser reveladas ao homem na forma de poesia”, situando a poesia como uma serva da religião. Mas Novalis, poeta alemão, invertia a relação desses termos, dando prioridade à poesia sobre a religião: “A religião não é senão a poesia prática… A poesia é a religião original da humanidade.”

É quando busco uma poesia para ilustrar essas afirmações. Instintivamente, estendo o braço em direção às obras de Fernando Pessoa. Tomo um livro à mão, folhei-o à toa, e eis-me diante do contraditório que, a um só tempo, resume meu pensamento:

LIBERDADE

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa…
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca…